"Eu destruo meus inimigos quando faço deles meus amigos." - Abraham Lincoln

RPG: Spirits and Specters; Personagem: Iona Lichtenberg

Prelúdio

Já fazia 1 mês que cuidava do cemitério... A princípio, parecia-me que a paz emanada pelo silêncio dos corpos sob nossos pés, seria um tanto macabra... Mas gradativamente, percebia como cada túmulo guarda histórias, fantasias, desejos adormecidos que talvez nunca conheçamos. Cada túmulo, um corpo, marcado por uma vida, marcado por uma morte...

Cuidar deles apropriadamente, não como um dever, mas com amor, parece o mínimo que podemos fazer... Tanto como um pedido de desculpas por estarmos vivos, por termos tomado seu lugar no mundo ou mesmo por não ter-lhes possibilitado lidar com e manter suas vidas... Quanto como um agradecimento, por tudo o que nos deixaram, por nos ceder seu lugar no mundo, por aceitarem tornar-se alimento à terra, para que nós vivamos...

E, com este novo olhar, sorridente, o cemitério parecia mesmo mais vivo.

Não desprestigiando o antigo zelador, mas sua idade avançada não lhe permitia executar seu trabalho com alegria, estava cansado... Gostaria de tê-lo visto descansar um pouco de sua aposentadoria antes de morrer tão repentinamente... Desta forma, parece que toda sua existência, vida e morte, se ligou a este lugar, infinita e tragicamente...

Mas, mesmo que isso ocorra a mim, terei certeza de tornar este um lugar ao qual valha a pena se ligar eternamente. Tornarei este cemitério um lugar onde morte se torna vida, onde os mortos descansem alimentando o solo de belas flores.

Quem sabe as hortênsias que cultivei em todo o contorno de seus muros possam refletir o céu límpido sobre nós e guiar as almas ao paraíso, num véu azul, libertando-as deste lugar?


Bem, se precisasse reclamar de algo naquela época, isto seria o silêncio do lugar... Mesmo com seus milhares de histórias, os mortos não podiam contá-las, restando, apenas, centelhas destas em nossas lembranças e nos epitáfios gravados em seus túmulos...

Mas, mesmo este se quebrava pelo som das latidas do São Bernardo que me acompanhava diariamente. Parecia pertencer ao antigo coveiro e era mantido numa dos mausoléus mais antigos, atrás de algumas grades, protegido por um cadeado, como um cérbero guardando o portão para o reino de Hades... Mas, era meu único companheiro, éramos os únicos vivos naquele lugar. Por isso, sempre pensei nele como o único que podia quebrar o silêncio aqui...

Apesar disso, naquela semana, meu melhor amigo, Malachi, passou a me visitar algumas vezes...

Na verdade, nos conhecemos desde o fundamental, éramos melhores amigos e sempre fiéis à companhia um do outro. Nunca menosprezamos os outros, mas, para mim, era a única forma de sentir-me completo...

Sentia como se nossas mentes e almas estivessem divididas entre nossos corpos... Como se para alcançar a outra metade, precisássemos falar em voz alta... Como se cada pessoa a nossa volta pudesse ler nossa mente cada vez que precisássemos da outra parte.

Ironicamente, nunca soube se Mal se sentia da mesma forma... E a necessidade dessa resposta surgiu tão tarde, que eu não podia mais perguntar sem ser notado. No início do ensino médio, Mal a deixou inserir-se em nosso grupo... invadir nossa mente...

Eu não a odiava, mas deixar que alguém que não Mal me lesse tão claramente não era uma tarefa simples. Dara era linda, extrovertida e bondosa... Uma verdadeira princesa dos contos de fadas mais belos e uma ótima pessoa.

E, embora, ainda assim, não fizesse parte de mim; não importa o quão difícil fosse compartilhar minha vida, se fosse pelo Mal, eu conseguiria... E, por dois anos, eu consegui. Penso se, ao menos, Mal percebera como me sentia ou quão era difícil dividir-nos com ela.


Mas, ao final do segundo ano, durante a cerimônia de encerramento, ela, como representante de turma, nos fez o agradecimento pelo ano letivo. Naquele momento, em frente a todo o colégio, ela, desafiando toda a escola, a ética, o pré-conceito, as punições e sua própria imagem, declarou seu amor por mim...

Eu não sabia como me sentir... Mal desviou seu rosto e eu nunca soube que expressão tomou-lhe a face naquele momento... Logo fui envolvido num turbilhão de pensamentos e me vi pressionado a aceitar sua declaração como uma proposta... Mas, infelizmente, eu não podia.

"Desculpe, Dara... Eu não estou pronto para o amor conjugal e, talvez nunca esteja. Pra mim, a amizade parece muito mais bela a se cultivar..."

Não pude aceitar seus sentimentos, magoei Mal e, agora, acabara de fazê-lo a Dara também, entregando-a impotente à zombaria de todo o colégio.


Até o final do dia e durante as férias de inverno, não nos falamos. A gravidez repentina de mamãe abalou muito sua saúde, já delicada, e às desgraças aliou-se a morte de papai. Minha família estava um caos, e eu não podia deixar de cuidar de todos, enquanto meu querido irmão, Calixtus, nos conseguia o sustento, trabalhando como ator numa rede de TV famosa.

Como se surgisse dos céus, aquele emprego possibilitou que nossa família, tão grande, continuasse unida. Mas, sem meu irmão em casa, eu podia contar quantas vezes podia dormir direito naquelas férias...

Passava as noites contando histórias para acalentar minhas irmãs, que sofriam muito sem o papai. Kanda parecia aceitar melhor, mas quando via como Priya se sentia, não podia evitar e ambas desmanchavam em lágrimas.

A doença de mamãe parecia só piorar com a morte dele... Mas, bravamente, ela nunca cogitou o aborto. Sempre nos dizia que ficaríamos bem sem ela, mas que a criança no ventre dela, precisava daquele sacrifício...

Com o passar do tempo, tudo foi se ajeitando – a saúde de mamãe melhorou um pouco com o nascimento de Florence, minhas pequenas irmãs finalmente aceitaram a morte de papai, e o sucesso de meu irmão o possibilitou rejeitar algumas gravações. Então, quando minhas aulas começaram, ele me prometeu uma folga durante a manhã, para não largar a única coisa que eu fazia para mim mesmo...

Ele era um bom irmão, sua gentileza sempre foi meu orgulho... Nunca o vi negar algo que parecia ser justo a alguém, não importa o esforço que precisasse fazer. Naquele turbilhão de mídia, sentia-me privilegiado por ser agraciado gratuitamente com sua beleza interna, enquanto ele vendia a externa por um alto preço. Nunca pude agradecê-lo apropriadamente, e acho que nunca poderei.

Enfim, com o início das aulas, apesar de Priya e Kanda me ajudarem a cuidar da mamãe quando haviam tarefas a serem feitas, não participei de clubes ou atividades extra-classes. O tempo que tinha e o estado em que minha mente se encontrava não me permitiriam cursar boas universidades de qualquer forma. Pareceu-me perfeito o curso de História de uma universidade próxima, que ocupar-me-ia apenas o período matutino e me permitiria ampliar minha cultura e conhecimentos sobre todos aqueles que alimentavam nossa vida com as suas.

Enfim, eu havia voltado ao colégio. Aparentemente, ninguém havia ouvido sobre meu pai, mas alguns já sabiam sobre meu irmão... Este cenário, aliado à última cena do ano passado, tornava-me alvo de injúrias por grande parte do colégio, que, agora, via-se dividido entre amigos e inimigos e prestes a um desastre.

Decidi, então, por um fim em tudo antes que começasse. Não há guerra se ambos os lados concordam, e o risco envolvido em tornar o lado inimigo em amigo não valia as vantagens. Fiz-me, portanto, o vilão, falsificando um orgulho próprio, traindo meu eu e tornando-lhe alguém que não pudesse ser amado. Deixei de lado os cumprimentos e as bases de uma boa conversação e, logo, todos uniram-se a mim na tarefa de me tornar odioso.

Não foi, porém, tão difícil quanto pensei inicialmente. A direção do colégio era rígida quanto a vandalismos e mesmo meus colegas nunca fariam algo desta natureza, então nunca corri qualquer perigo físico.

A maior dor era, sem dúvida, a psicológica ao evitar ao máximo falar com Mal, ou mesmo com Dara; e culminou quando, no aniversário de vida de papai, ele veio a mim:

“Hey, Iona...”

Naquele momento, não sei que tipo de face me tomou, mas não importa quanto meu espírito estivesse prestes a chorar, eu não queria fazê-lo sob os olhos dele...

“Está tudo bem?”

“Ah... S-sim, claro, Mal! Eu só ando um pouco estressado com as provas...“ – Nunca havia tido chance de descobrir o quão bom eu seria escondendo qualquer coisa de Mal, mas achei que, se ele soubesse o que eu queria, certamente me ajudaria simulando não perceber...

“Hoje é aniversário do Onkel, certo?” – Como eu supus, ele agiu como se não percebesse o medo que percorria meu espírito e que eu lhe tentava esconder, mas o destino não me era favorável... Como pudera, ignorando nossos esforços, deixar-lhe falar sobre ele?

“Ah... Mal... E-eu não te contei, certo? Papa... não está mais conosco...”

“N-não... Eles se separaram? Mas, o Onkel e a tante se davam tão bem...”

Foi aí que meu silêncio transpassou meu olhar, atingindo Mal, fazendo-o engolir em seco em ressonância.

“Você... não quer dizer que...”

“Porque não me contou?! Isso não tem nada a ver com a Dara ou com sua atitude detestável ano passado! Isso é muito pior, Iona! Como pôde fingir que isso não tinha nada a ver comigo?”

“D-desc... Não, eu não vou pedir desculpas, Mal... Eu realmente nunca pensei em dizer a você.” – Eu sei que ele entendeu. Sei que sabia como eu me sentia, que nunca faria algo para machucá-lo, mesmo que nos tornasse mais longe e que ele não me perdoaria tão facilmente.

“Maldito seja...” – sua face, sem perder a calma habitual, mesclava tristeza e decepção, quando deixou em minha mesa um pequeno embrulho e se retirou.

Eu poderia, algum dia, ser perdoado? Mais importante que isso, ele e Dara ficariam melhor juntos e sozinhos? Não havia garantias que eu tinha as respostas, mas, naquela época, era tudo em que eu acreditava.

Desde então, nossos contatos ficaram cada vez menores, resumindo-se a poucos olhares que se cruzavam enquanto eu dispensava pensamentos a ele ou a contatos relacionados a assuntos da sala com a representante de turma.

À medida que o tempo passava, eles se aproximavam, gradativamente, até o ápice do namoro. Bem, pelo menos uma de minhas previsões estava certa, mas a forma como a notícia chegou até mim me provava que apenas uma.

Eu não havia sido perdoado e sido privado mesmo do compartilhamento dos momentos felizes de Mal. Fui o último a saber e não havia do que reclamar, afinal apenas me pagava à mesma moeda. Apenas pude parabeniza-lo, mesmo que atrasado, no dia de encerramento das atividades da turma:

“Pessoal, quero pedir desculpas pela confusão causada ano passado.” – Dara falava pausadamente, calmamente, como se contendo seus sentimentos.

“Não estou fazendo isso apenas porque me pediram, mas realmente por me arrepender do que fiz. Agi infantilmente e precipitadamente e só peço que me perdoem...” – Seu olhar se voltou para mim e pude compreender como se sentia. Com apenas alguns segundos, me despiu completamente de meu egoísmo, jogando-me à vista seus sentimentos também. Dara não era como Mal, ela não podia compreender o que lhe falava com o olhar; ela se sentia culpada por pensar me ter magoado.

“Mas, a todos que tentaram me apoiar, agradeço. Como todos sabem, consegui o que queria, e estava bem do meu lado o tempo inteiro.” – Seu olhar se voltou a Mal, que sorria em agradecimento à referência.

“Eu espero que nossa passagem seja como esta história de amor. Um amor que não acaba, só muda de direção. Que cada vida aqui, com o fim do Ensino Médio possa continuar, alegre e divertida como sempre foi, mas em direção ao futuro como um adulto, respeitoso às vidas dos outros e à sua própria.”

Dara era boa com as palavras quando estava em público. Como se, ali, com cada olhar como uma rota de fuga, ela pudesse fugir das reações daqueles com quem fala; ela escondia o medo sob sua voz, límpida e cristalina. Ao finalizar o discurso, ela desceu, e foi ao encontro de Mal; ambos sorridentes como num final feliz.

“Meus parabéns” – Fui até eles. Mesmo sem saber exatamente o que queria falar, eu sabia a quem o queria.

“Eu... sei que estivemos separados por um ano, mas eu estou muito feliz por vocês... Estarei enquanto vocês estiverem.” – Dara suprimiu as lágrimas que saltaram, contra sua vontade. Eu, certamente, não esperava esta reação... Em outros tempos, ter-lhe-ia oferecido acalento, mas não importa o que o fosse, isto não parecia o certo nesta ocasião.

“Obrigado, Lichtenberg.” – Mal pareceu se chatear... Eu nunca o havia ouvido me chamar pelo sobrenome... Eu nunca havia sentido tal dor também.

“Ah... D-desculpe... aos dois...” – Eu não podia mais encará-los. Não era mais digno de compartilhar momentos de felicidade com Mal, porque, neles, haveria Dara... E eu a ferira com tamanha intensidade, que a cicatriz seria eterna...

Só pude deixa-los novamente, fugindo mais uma vez... Os fins de ano são bem tristes, não são?


Mas, naquela semana, em fevereiro do ano seguinte, lá estava Mal, no cemitério, procurando por mim...

Quando o vi, não fui capaz de discernir se por conta do local ou dos nossos últimos encontros, mas não pude deixar de cogitar as piores possibilidades... Depois de tudo, porque Mal viria falar comigo afinal?

“M-mal? O-o que aconteceu?” – Ele parecia cabisbaixo, mas nós sabíamos que esta era a menor razão para minha pergunta.

“Preciso falar com você, Iona... Há um ano para conversarmos.” – Ele forçou um sorriso em seu rosto cansado que disfarçava-lhe um pouco as olheiras.

“Tenho todo o tempo que precisar, Mal...” – Desta vez, estávamos sozinhos. E mesmo que houvesse o que esconder, não havia a quem... As lágrimas rasgaram, em meu espírito, uma saída para saudá-lo.

“Ficou fora de forma, já que não precisa mais simular no colégio?” – Ele se riu um pouco mais sinceramente, como se compreendesse meu “um ano” naqueles pequenos instantes.

“Mas... achei que estivesse com Dara...” – As palavras começaram a deixar meus lábios tão naturalmente que, antes de me dar conta, mesmo minha voz parecia ter voltado a ser como antes...

“Oh, deus... Você a odeia, não é?” – Num sorriso sarcástico, ele nem mesmo me concedeu qualquer tempo para a resposta: “Nunca, eu...”

“Eu sei que não. Não esqueça quem sou eu... Posso ler através de você, como um pedaço da sua alma, Iona... Só preciso pedir que me perdoe...“ – Sua expressão sequestrava a rigidez do olhar, tornando-o doce e firmando-se séria.

“Porque eu te perdoaria? Nunca haveria nada a se perdoar de alguém que me trouxe a vida...” – Recostei-me sobre o túmulo vazio que estava a abrir.

“Preciso pedir perdão pela Dara, por mim, e por mim e pela Dara...
Mesmo que eu possa lê-lo, não posso saber do que nem mesmo você sabe... Por isso deixei que ela se aproximasse de nós... Queria... testar... Ver se realmente poderia dar certo entre você e ela.”
– Ele se juntou a mim, acariciando as pétalas azuis uma hortênsia do véu que se estendia pelas paredes.

“Então, você já sabia que...” – Eu estava surpreso... Ele havia percebido antes de mim e sem que eu sequer notasse?

“Sim, eu... Na verdade, ela havia falado comigo sobre isso... Disse-me que te faria mais feliz que qualquer outra pessoa, que sua felicidade seria proporcional ao amor dela...”

“Mal, eu...” – Fui detido por seu olhar, como se, adivinhando minhas próximas palavras, reprovasse-as imediatamente.

“Mas, eu podia te ler... Sei que você não a amava como... como a mim... No início, achei que o narcisismo do observador sempre o faria encontrar-se como personagem principal, mas não era assim. Mesmo quando falavam entre si, seu sorriso nunca foi pra ela... Era um sorriso superficial, que alegrando-a, apenas me faria feliz.”

“Mal, me perdoe...” – Naquele momento senti como se todo meu esforço fosse falso... Como se não houvesse sentido em fazer alguém feliz pelo bem de outro.

“Não se preocupe, você sempre fez o seu melhor por mim...”

“E este era justamente o problema... De que convém fazer o bem a alguém esperando a alegria de um outro?”

“Ora, vamos. Eu ainda podia te ler, e eu a alertei... Você não aceitaria seus sentimentos naquele dia da forma como tudo estava... Mas, ela não me ouviu... Você conhece suas vias de fuga em meio às multidões...
Em meio a seus falsos sorrisos, havia sentimentos encalacrados na alma dela e palavras empaladas em sua garganta, ela não foi capaz de segurá-los... Foi minha culpa de qualquer forma... Minha e das falsas esperanças que a dei...”

“Mas, Mal... Por quê?”

“Eu sabia que, quando se tratasse de nós, você não era capaz de me ler tão bem... Iona, você realmente acha que poderíamos passar uma vida juntos?
Dara é linda, inteligente e, certamente, a esposa perfeita... Achei que se passássemos tempo juntos e felizes, você seria capaz de realizar isto e ser feliz, até o fim, com ela.”

“Por mim...” – Mal havia feito tudo por mim... Mesmo que não houvesse culpa alguma sobre mim, ela seria posta agora... De que adianta uma existência fadada a sufocar todo aquele que amo?

“Sim, por você... Fui injusto, comigo, com ela e com você sob a égide do seu nome...
Desculpe, Iona... Por fim, acabei magoando a todos, me acorrentando a uma falsa promessa de eternidade juntos e a uma tarefa, impossível, de fazer feliz uma pessoa com alguém que não a ama de verdade... Fui infantil e, quanto mais culpava você, mais me condenava a amar o culpado...”

“Você não estava errado em tudo, Mal...
Meu egoísmo não me permitia voltar os olhos aos sentimentos de Dara ou aos seus; ele, apenas, me mostrava mais e mais de minha própria dor e me fazia fugir desesperadamente...
Fui o culpado, por ligar-lhe a Dara, por ligar-lhe a mim, por forçá-lo a escolher e pela ignorância de acreditar que qualquer coisa pode ser resolvida pela fuga... Como o narcisismo de uma criança pequena, que volta as palmas das mãos sobre os olhos, encobrindo-os como se assim pudesse apagar o mundo... Como se tivesse este direito...”

“Você não entende, Iona...
Não importa o quanto você fuja... Enquanto estivermos correndo desesperadamente em sua direção, mesmo que apenas em nossa mente, você nunca nos deixará em paz...
Mesmo que nossos corpos estivessem juntos, nossos pensamentos sempre insistirão em percorrer, separados, o mesmo caminho... Em sua direção...
E, isso explodiu...
Desde o último domingo, ela não atende minhas ligações, e-mails ou mensagens... Isso explodiu de tal forma que a única forma de reparar tudo o que fiz aos dois é nos unir novamente, como se nada houvesse acontecido, assassinando, enterrando este ano dentro dos nossos corações... Tão fundo, que nunca mais voltará a nos assombrar...”

“E nós sempre achamos nossos pais complicados...” – Sentia meus lábios secos de palavras... Mal me havia roubado... Havia tirado todas aquelas palavras que aprisionavam a si próprias em minha garganta, não permitindo a mim próprio ouví-las e arremessado-as de volta para mim... – “Obrigado, Mal...”

“Você não estava mesmo ouvindo, não é? Você não deve agradecer; apenas me desculpar e concordar...” – Seu sorriso era um afago assustadoramente amável...

Desencarcerava todas as lágrimas que lhe eram de direito e que eu lhe havia negado por tanto tempo... Todas as dores que se encravaram em uma metade da alma, agora, jorravam desesperadamente como se para alcançar a outra parte, multiplicando-se como um câncer a destruir a melancolia...

E ele aceitou, aceitou cada parte da minha alma, cada lágrima, com um abraço gentil e cálido, lembrando-me do calor da vida naquele lugar cheio de morte...

“Ah, elas são pra mim?” – Parece que as habilidades de despedaçar minha tristeza incrível e eficientemente ainda eram a especialidade de Mal – “Vou comê-las todas” – E, naquele tom zombeteiro, como se fosse realmente capaz de limpar-me toda a tristeza, começou a beijar minhas lágrimas e lambê-las, substituindo-as por sua saliva quente, substituindo a melancolia por sorrisos descontraídos, substituindo a seriedade do ambiente por uma felicidade ainda mais profunda. – “M-mal, isso é nojento... Você está louco? Vamos, pare!”

Ele me segurava tão forte quase como se acreditasse que eu realmente queria fugir... Como se simulasse esquecer que eu desistiria de qualquer coisa pra passar o resto de meus tempos assim, com ele...

“Eu paro sim, mas vamos parar juntos! E se não consegue parar, tornarei cada gota de tristeza em felicidade!” – Ele liberou-se, então, uma das mãos que me aprisionava, pressionando-me contra seu corpo com a outra, e deixou-a deslizar sobre minha cintura, afogando-me em cócegas...

“Você está louco, Mal?!” – Eu não podia parar de rir... A felicidade saturava meus pulmões, impedindo-os de respirar, preenchendo o lugar que a tristeza vagara, tão abundantemente como se os pretendesse explodir... E, certamente o iria se, em meio à disputa, ele não me soltasse, roubando-me o equilíbrio e derrubando-me sobre ele, numa repentina queda que nos levara ao chão...

A terra que cobria os mortos e que às flores e grama era berço manchava nossas roupas, encharcando pele e cabelos... Como no mais belo sonho, voltamos a ser crianças, sem nos importar com o sermão ao voltar para casa ou com os olhares condenadores pelo caminho... Nós riamos alto, nos sujando em lama, sequer nos preocupando em acordar as almas que descansam sob nós...

Mas, o lençol de sonhos que perfazia nossa pequena cabana, escondendo nossa brincadeira travessa da luz da lua era puxado como em nossos velhos tempos, nos lembrando de nossas obrigações, de nosso lugar no mundo externo, no mundo dos outros que não nós dois... Porém, dessa vez, por uma voz estranha à de mamãe... Eram as latidas de Mozart, que nos agrilhoava novamente à realidade, como se, invejoso, reclamasse alguma atenção ou, íntegro, reivindicasse o silêncio às almas repousantes sob as tumbas.

“Haha! Já o devolvo, garoto... Não precisa ficar com ciúmes!” – Mal se levantou, me derrubando novamente, e indo em direção à testemunha e delatora de nossos crimes. – “Eu não sabia que você tinha um cachorro aqui!”

Mal sempre adorou animais... E, certamente, se não fosse pela alergia de sua irmã mais nova, teria um ou dois cachorros.

“Eu não acredito! Um são bernardo? Se tivesse me contado que tinha um, eu não demoraria tanto pra vir!” – É, Mozart havia perdido... Nem mesmo seus altos latidos foram capazes de nos arrancar deste sonho...

“Você tem a chave, não tem?”

“Claro, mas não vai sair tão barato assim... Veja, uma bela chave dourada, dos anos 80, não se vê mais relíquias destas nos dias de hoje... Quem fará o primeiro lance?”

"Hm... Um beijo seria o suficiente ou você tem um senso de humor compatível com cemitérios?”

“Ha, boa tentativa! Mas, hosts cheios de terra não são meus preferidos... Acho que você vai mesmo me ajudar a arrumar a bagunça que fez ali atrás...”

“Ah, mil perdões minha dama! Mas, se abandonardes a mesquinhez e abrirdes esta porta, posso garantir que estarei limpo em um piscar de olhos“

“Não pense que eu vou deixar Mozart lamber essa lama... Eu lhe dei banho ontem...”

“E, quando esta louca ideia lhe veio à mente, onde achaste que esconderia a chave quando tentasse me impedir?”

“Hmm.. “ – Mal estava realmente abusado hoje, parecia irradiar felicidade em cada palavra que proferia, como se, com todas suas forças, apagando o obscuro e melancólico silêncio do cemitério – ”Vejo que não tem jeito mesmo, né? Tó a chave... Distraia o bebê enquanto eu cuido da sua bagunça, está bem?”

“Como quiser, vossa alteza!”

Os sorrisos de Mal estenderam-se pelas horas da noite com os latidos de Mozart, como num réquiem...

Eu nunca havia desejado ser perdoado por profanar a sagrada melancolia do cheiro de morte do lugar com alguma felicidade, mas eu definitivamente não esperava uma maldição vingativa daqueles que lá tentavam descansar...

“Está tarde, Mal. Deixe-me acompanhá-lo até em casa...”

“E que tipo de herói deixa sua donzela o levar até em casa?”

“Você é bobo? Vamos, isso pode ser perigoso!”

“Eu já percebi seus planos, Iona... Você quer um beijo de boa-noite, certo? Posso te dar aqui mesmo...” – Seu sorriso leve havia facilmente me convencido, como um títere que, sutil e acidentalmente, enviava sua marionete ao mais profundo pesadelo...

“Até mais, Mal!”

“Até mais!” – E lá se foi Mal, com minha felicidade...

Pouco antes do ápice lunar, decidiu voltar para casa no que haveria de ser uma pequena pausa no sonho, mas que, fatidicamente, tornou a cessá-lo, porém, desta vez, eternamente.

No dia seguinte, fui surpreendido pelas manchetes de jornal que substituíam a série televisiva de meu irmão... Era Mal, ou, pelo menos, aquilo que restara do que havia sido. Seu corpo estava em destroços, seu rosto praticamente irreconhecível... Mas, infelizmente, não para mim.

Não importa o quanto minha mente se recusasse a acreditar, o coração tomara o papel de revelar-lhe, esfregando-lhe cruelmente a verdade à fronte.

Os pensamentos passavam rapidamente, fugindo e, ainda assim, deixando-se notar... Meu papel, como guardião do cemitério, não seria possibilitar um descanso eterno àqueles que o merecem? Como poderia deixar descansar aquele do qual eu preciso acordado?

Dara... Como haveria de falar com ela agora? Como haveríamos de ser amigos novamente se o elo que nos unia se rompera? Aliás, como haveria de ser amigo a qualquer outro se minha inspiração e mesmo a definição desta palavra não me estava mais à vista? Como poderia amar se já não existia meu amor?

E ainda, como seria capaz de aceitar uma vida à custa de sua vida? Como poderia aceitar que alimentasse o solo que meu corpo se meu espírito é aquele que lhe necessita? ...Como haveria de viver num mundo que lhe negou a existência?

Mesmo as palavras que dispensava aos parentes, mesmo a lógica de cada pensamento, mesmo a lembrança da eterna certeza de que todos teriam este fim... Nada parecia efetivo para engrandecer, mesmo que infimamente, o significado de minha vida...

Porque haveria de viver aquele que fere quem ama? Porque haveria de viver aquele que não ama? E fatidicamente, a resposta viria ainda naquela semana.

Com seis dias passados, eu ainda não podia sorrir, mesmo que por compaixão daqueles que se debatiam inutilmente para me ajudar... E eu estava ali novamente, naquele lugar, sobre o túmulo de Mal, culpando-me por permitir tê-lo ido... Culpando-o por ter-me enfeitiçado... Desejando unir nossos destinos, o dele ao meu ou o meu ao dele.

Mesmo a flor que oferecia a outros túmulos, negava-lhe... Não me deixava permitir que qualquer um neste mundo que me negou sua vida, lhe tomasse a morte...

Mas, ali mesmo, como uma punição, ou uma recompensa, as fitas-guia de nossos destinos haviam de se enlaçar novamente, como se nossas almas, buscando uma pela outra, não conseguissem apaziguar-se... E, como num surto devaneador de loucura, sob meus pés, a terra de seu túmulo, começava a se mover sob o som de pequenas batidas ritmadas...

Seria mesmo possível? Não, certamente acreditei ser uma ilusão travessa; fruto da irônica vontade de vê-lo novamente, mesmo que morto; pregando-me uma peça... Mas, sendo de Mal, nunca negaria, mesmo às ilusões, uma segunda chance...

Tomei-me à mão a enxada, o machado, e todo instrumento afiado que me parecia ter o poder para violar um túmulo já fechado, destruindo as barreiras entre a vida e a morte, entre o vivo e o morto, e terebrei toda a estrutura que o permitia descansar em paz...

Escondida nas trevas noturnas, a sepultura negava-me a visão, amplificando os sentidos, fazendo-me sentir o cheiro do ofegar de outra criatura... Presas gélidas, cobertas por terra tomaram posse do meu pescoço, fincando-se firme e sinceramente e sugando minha alma, libertando-a de meu corpo impregnado de tristeza... Mãos grandes, frias, e, ainda que fortes, delicadas, pressionavam meu corpo contra o seu... Era Mal, não era?

Sua voracidade ampliava-se à medida que dilacerava minha alma... Senti meu coração bater forte, como se me ostentasse orgulhosamente toda a vida, oferecendo-a numa bandeja, como uma estrela que, no ápice de sua vida, explode e, então, deixa de brilhar...

Pretendia lutar por minha vida, mas, para minha surpresa, ironicamente fazendo-me oscilar entre intensa felicidade e profunda tristeza, quando percebi que era Mal, do outro lado, transpassando os limites da morte ele também, vindo a mim como eu a ele... Desisti do que já havia desistido... Se era a Mal, eu não me importaria de alimentar-lhe com minha morte ou com minha vida...

Calmamente, voltei-lhe o pescoço e acariciei-lhe o cabelo desarranjando-o mais um pouco e envolvi-o em um abraço tão apertado quanto minhas forças ainda permitiam... Seu corpo gélido tornava-se ligeiramente cálido... Ou o meu se tornava frio? A sensação estonteante que me tomara, percebendo minha própria vida em luta contra a morte, a adrenalina dilacerando os músculos cardíacos ao ápice do êxtase, numa profunda excitação, começava a deixar meu corpo, levando consigo sua vida...

Pela primeira vez senti como se fosse importante para Mal, tanto quanto ele a mim... Senti como se pudesse ser seu alimento, seu oxigênio, algo essencial, mesmo que apenas meu corpo... Mas, quando tentei agradecer-lhe apropriadamente, era tarde demais... Só me restaram sussurros e gemidos que nunca lhe alcançariam... Enfim, tornei-me meu corpo seu alimento, minha morte em sua vida, esperando que pudéssemos ficar eternamente juntos, unidos por nossos espíritos.

Mas, eu nunca pensei que, mesmo do lado oposto, um morto continuaria sendo um morto...

Então, houve trevas e apenas trevas.

E, nas trevas, surgiu uma luz, que esplendorosamente desbotava as trevas em meus olhos, segregando-se das trevas e concentrando-se em uma simulada silhueta humana, que me envolvia, pacificamente, num véu macio de incenso.


~~ Continua ~~

Comentários/Prelúdios de outras personagens

Malachi Gottschalk

Naquela época, era muito pequeno... Tinha cerca de 8 anos e acabava de começar a aprender sobre aquela religião...

Desde o nascimento, minha família decidiu que minhas convicções religiosas deveriam ser fruto de minha própria escolha. Ao invés, porém, de evitar interferências, percebendo a impossibilidade de tal imparcialidade no mundo dominado pela mídia, resolveu influenciar-me ao máximo em cada uma delas, para que eu, conhecendo várias faces e verdades de um mesmo mundo, pudesse decidir em que acreditar e a que seguir.

Já havia passado por algumas escolas com fortes concepções ditas "pagãs" e, este ano, iniciava a entrada em um colégio estritamente católico.

Ora, não era de estranhar a rigidez em todos os lugares pelos quais passei... A religião é um caminho estreito que guia as almas, supostamente, ao paraíso... Quando o crescimento da alma ultrapassa os limites deste caminho, ela precisa ser podada, redirecionada...

A bíblia, embora antiga e rígida, assemelhava-se muito às outras que havia lido, mas algo me chamou a atenção enquanto papai lia para mim...

Era um anjo, o mais belo e pomposo deles, o ser mais próximo àquele deus... E, brilhante como era, podia compartilhar de toda a glória...

Mas, ele foi chamado ganancioso e enganador. Amaldiçoou o ser humano e obrigou-se a viver nas imundas trevas do tártaro, num eterno combate contra aquele que mais odeia, provando a Deus que Sua obra não lhe era digna...

Na inocência infantil, como podia conceber a intolerância à beleza da maldade? Porque fazer dele tão belo se ele haveria de ser cruel?

Não... Eu não pude acreditar que, tão próximo a deus, sua decisão, tão destemida, proveria de simples sentimentos egoístas...

Não seria Lúcifer o maior amante de Deus, que, abominando sua criação que o traira, proteger-lhe-ia da própria comandando-os? Lúcifer, o senhor dos maus, aquele que suja sua imagem e beleza, tomando para si toda a culpa, para proteger seu maior amado...

Mesmo sua beleza tornava-se luxúria e sua humildade, ganância, para que, sendo odiado, pudesse carregar todo o peso da criação da humanidade.

Se o homem é mau, Lúcifer o está atentando. Assim, a culpa se esvai... da humanidade, ... daquele que a criou.


Então, em meu primeiro dia de aula, fui solicitado a fazer uma oração. Felicitei-me com a chance que teria de ser ouvido. Quem sabe não podiam apiedar-se, como eu, daquele que a si atribuiu toda a vergonha do mundo? O professor pediu que todos os colegas fechassem seus olhos, voltando, assim, a atenção de todos à audição.

"Senhor Deus de todas as coisas, deus de Abraão, Isaac, Jacó e de tantos outros...
Sei que pode parecer repentino, mas, como perdoamos nossos irmãos, quero lhe dizer, hoje, que perdoamos Lúcifer também.
Sei que o senhor o compreende e não pretendo compreendê-lo melhor ainda, mas espero que, eternamente, o ame como ele vos ama. Tenho certeza que apenas isso o basta.

Amém.

Enquanto recitava, pude perceber alguns murmúrios... Parecia óbvio que eles, que sempre odiaram o senhor do mal, não iriam ceder sem uma maior explicação... Mas, para mim, não era.

Ao abrir meus olhos, pude ver que todos me encaravam, voltando suas melhores faces raivosas, apontando minha blasfêmia a seu deus... Exceto por ele...

Ele me presenteava com, ainda de olhos cerrados, o sorriso mais lindo que já vira... Se era Lúcifer o mais belo dos anjos, ele certamente era o mais belo dos homens.

Aliás, chamá-lo de garoto era, praticamente, um pecado... Sua face macia rosada, como uma pétala de flor, e seus traços pequenos e delicados tornavam seu rosto num dos mais belos sonhos de uma criança. Seu corpo, porém, denunciava seu gênero, apesar de frágil e esguio...

Eu não podia acreditar que seres belos podiam ser malvados... E, só depois, eu percebi que mesmo o ser mais belo não é belo antes que você o olhe e assim o diga... A beleza se cria no momento em que, com seu espírito em júbilo, seus olhos encontram a razão deste e a esta denomina o conceito de belo.

E foi assim... Por meses, pensei que queria protegê-lo das injustiças que lhe foram lançadas... Proteger Lúcifer, odiado por seu amor incondicional a deus.

Mas, logo percebi que àquele Lúcifer não cabia uma adoração inconcebível a nenhum deus, tampouco haviam injustiças...

Entretanto... eu, desejei fortemente tornar-lhe belo como Lúcifer... desejei tornar-me seu deus, independente da dor sentida por ambos... E, por muito tempo, me odiei por isso...

Anos se passaram... Eu monopolizei aquele sorriso, o escondi do resto do mundo, simulando acreditar o estar protegendo, mas me culpando internamente por o estar condenando...

Até que ela surgiu... Minha chance de salvá-lo de meu egoísmo...
Linda, forte e popular, com Dara, Iona nunca seria monopolizado.

Atraindo a todos, ela facilmente disseminaria, por entre todos, aquele sorriso... Repartindo meu tesouro, minha felicidade...

Pensei que ela, realmente, podia libertar aquele anjo que fora obrigado a me escolher como seu deus... Condenando-me, por meus pecados, à partilha de tudo que tinha...

Mas, apesar do sincero cuidado que tomei com minha redenção, ela se negava a mim... Meu perdão não podia ser concedido? Era como se minhas ações houvessem se tornado irreparáveis...

Iona era incapaz de sorrir a ela. Eu o havia tornado incapaz... Havia trancado meu tesouro por dentro e, não importa o quanto tentasse, não havia como sair e entregar a chave.

Então, sucumbi à minha fraqueza espiritual, culpei-o. Fiz-lhe o que Deus fizera a seu anjo mais belo... Culpei-o e condenei-me a agraciar o homem, que, fruto da minha culpa, sofria pelo seu desprezo...

"Como posso amar aqueles feitos de argila se sou como teu igual?" - Eu, finalmente, havia criado sua ganância. Finalmente havia criado meu anjo mais belo...

Mas, sendo eu seu deus, como poderia ajudá-lo? Como poderia perdoá-lo?

Personagens Principais (Imagens)

Iona Lichtenberg

(Originalmente: Personagem de Yuki Kaori)
Malachi Gottschalk

(Originalmente: Ritsuka, do anime Loveless)
Dara Macbeth
(Originalmente: Sawako Kuronuma, do anime Kimi ni Todoke)

Outras personagens (Imagens)

~~ Em breve ~~

Ficha

Plantas

Casa:
Cemitério:

Vídeos das sessões

Sessão 1

Sessão 2

Vídeos do prelúdio