"As suas costas, somente podia contemplar a fragilidade daquele corpo que insistia em se cobrir de branco mesmo sob a chuva vermelha" - Venosi L'absenti

RPG: A minha liberdade pela sua liberdade; Personagem: Ghaith

Prelúdio

Em 2012, os anjos despertaram das profundezas do mar e do alto dos céus e, com seus corpos perfeitos e seus espíritos domados, compreenderam o que se fez em sua terra, decidindo dar continuidade ao irônico fim que os humanos tanto desejavam... Enfim, ajudaram-nos a se matar, a destruir o mundo, a dizimar toda a raça humana.

Os humanos, porém, lutavam incessantemente contra seus próprios íntimos desejos, protegendo-se inutilmente do imenso poderio bélico dos anjos, composto de uma magia há muito esquecida e mesmo condenada por eles.

Na Grande Guerra, a perfeição angelical chocava-se à teimosia humana, que não admitia sua própria vontade de deixar este mundo... Ou seria sua própria natureza destrutiva que não se deixava destruir para proceder à destruição eterna?

Seja in ou felizmente, os anjos que facilmente domavam seus espíritos não eram capazes de domar a chama do espírito humano. Entre a resistência havia um herói, que nos foi nomeado Archelaos, e os anjos decidiram que a morte deste destruiria o espírito humano. Mas, no que deveria ser o último golpe, este espírito brilhou mais forte como água numa panela queimando. "O mestre morreu. Estamos perdidos!" eles gritavam, mas definitivamente não era como se sentiam por dentro ou mesmo por fora... Seus exércitos lutaram mais bravamente que nunca, seus cientistas criaram as melhores armas... Era como se, durante todos aqueles anos naquele mundo sujo, a alma humana entrelaçara-se à ironia de tal forma que mesmo sua alma mentia ao mundo.

Os humanos venceram, ou ainda, os humanos restaram... pois, numa guerra jamais há vencedores, apenas aqueles que desistem primeiro e aqueles que restam de pé.

Aqueles foram chamados "O povo de Adão", os primogênitos. Por entre os avanços científicos da guerra, a ingenuidade humana descobriu seu próprio espírito, que dormia dentro de si próprios o tempo inteiro. Não se sabe se a descoberta se deu após a morte do Grande Herói ou se a elevação do fogo das almas foi premeditada... Tudo o que se sabe é que os espíritos foram usados para reviver o planeta.

Os espíritos compunham-se de sonhos: o amor, a liberdade, a sabedoria, a justiça, a confiança ou mesmo o ódio. A força de todos os desejos fincados na alma humana, reprimidos pela guerra, era a única vantagem sobre os anjos que, em sua perfeição racional que abominava a ironia, eliminaram de si qualquer vontade sobre o que não poderiam obter.

O povo de Adão aproveitou-se desta força, canalizou-a na própria terra, da qual emergiram árvores frutíferas, um solo propício ao cultivo de alimentos humanos e uma pequena vida, que se convencionou chamar de "cidade". No início, o clima, as plantações e mesmo o solo eram instáveis, pois, as "cidades" eram infantis e volúveis, mas depois de algum tempo, a estabilidade cresceu, assim como a força dos espíritos, a força das "cidades".

A raça humana, pois, empenhou-se a proteger as "cidades", pois, estavam ligadas às cidades. Seu sofrimento representava o sofrimento de todos os cidadãos...

Ainda hoje, os humanos e o resto de nós vivemos sobre os desejos oprimidos de outros humanos, que morreram na Grande Guerra... O resto de nós, como servos da família real, aproveitando-nos da nossa falta de espírito que nos permite servir tão fielmente. E lamentando-a por não poder criar cidades próprias.


Esta foi a história que me contaram. Estava nos livros de história da escola que frequentei à mando do lorde, para servir-lhe de guarda-costas a sua filha, Shahrazad.

Nossa cidade é conhecida como "Liberdade", reconstruiu-se a partir do espírito da Liberdade, portanto. Espírito este que vivia entre nós, sendo ofertado diariamente com tudo o que é necessário para garantir seus próprios desejos de liberdade, mesmo que isto significasse ignorar os desejos próprios de cada cidadão.

Isto nunca me incomodou, apesar... Não eram meus próprios desejos suprimidos, já que, em minha perfeição não os tinha. Mas, em algum ponto, isto mudou...

Crescendo entre humanos, sua ironia habitual parecia me infectar de alguma forma. Este desejo imundo de ter o que já pertence a alguém, de ser o que não se pode, de faltar com as obrigações ou mesmo de ser feliz havia tomado parte do meu coração quando percebi a dor que sua supressão causa e a tomei para mim, ao invés de fugir.

Shahrazad foi escolhida como esposa do espírito da Liberdade, que, após alguns acontecimentos, havia sido acorrentado numa torre. Ela nunca teve escolha, então eu não podia entender porque tinha desejos... E, talvez dando a luz a uma inveja humana, perguntava-me porque, se os tinha, eles não eram respeitados...

Então, ela me contou. A história daquela triste cidade... E daquela triste "cidade".


Pouco antes de nascermos, o espírito da Liberdade ainda vivia entre os habitantes deste lugar. Ele os agradava e era agradado... As colheitas eram sempre tão perfeitas quanto as festas que fazia, havia tudo como melhor se podia haver...

Dia após dia, desejos de liberdade eram atendidos: festas, jogos, comida, bebida, felicidade. Até que, certo dia, após o fervor da infância esfriar, no início de sua puberdade, o espírito desejou algo que lhe era proibido. A beleza da esposa do imperador era, certamente, única. Era uma das poucas descendentes orientais, com cabelo ondulado, pele negra e olhos dourados, mal falava nossa língua.

"Eu a quero." ele disse, em alto e bom tom em meio à sua festa de aniversário. Não se soube se ela foi capaz de compreender, mas devolveu um sorriso cálido. O imperador, condenando tal ato desonroso, tratou de negá-lo e castigá-lo por uma noite.

Naquela noite, houve incêndios, terremotos e catástrofes por toda a cidade. Crianças cometiam suicídios em massa e todo aquele com espírito expressava seus desejos da forma mais extrema possível... A cidade buscava sua liberdade enquanto a "cidade" era presa, sofria sua dor, chorava suas lágrimas.

Temendo uma revolução dos habitantes, apesar de ainda condenar o ato, apesar de compreender que uma lição não havia sido aprendida, o imperador foi até o espírito e lhe falou. Conversaram por horas, o coração da "cidade" se acalmou, ele enfim compreendeu o quanto seu desejo de liberdade própria, desconsiderando a vontade da mulher e o amor do imperador, era egoísta e mesquinho...

Os incêndios cessaram, a terra estabilizou-se, as tempestades e ventos se acalmaram... Mas, o sol jamais se abriu novamente. Acostumados a uma farta produção e felicidade diária, os cidadãos tiveram que se resignar a uma colheita pobre de um solo improdutivo. A criação de animais foi encerrada para economia de alimentos, os riachos secaram e haviam chuvas fracas e tristes todos os dias. Desde este dia, nunca mais se viu um sorriso do espírito da Liberdade.

Então, certo dia, foram à sua casa dispensar-lhe as oferenda diárias, encontraram seu corpo deitado sobre uma imensa mancha do sangue que, ainda fresco, deixava seu punho em grande velocidade e puderam ouvir-lhe balbuciar "desculpe... por meu egoísmo..."

Neste dia e nos próximos meses, a população foi reduzida a um décimo da original. Milhões de pessoas, e mesmo anjos morreram em desastres naturais, outros milhares, de doenças e haviam suicídios diários. Mas, a maior causa-mortis, sem dúvida, foi a depressão massiva que se deu em toda ela.

Que se pôde dizer? O espírito não conseguia acatar a responsabilidade pelas dores que havia causado? O sentimento de culpa por algo que fez enquanto vivia na ignorância havia lhe tomado as rédeas da vida?

Nove meses de desastres e a resposta veio. A bela esposa do imperador dava a luz a uma criança, uma "cidade", e trazia de volta à cidade a inocente instabilidade da infância.

Percebeu-se, então, que a instabilidade do prazer e sentimento de culpa construíram aquelas chuvas fracas que, todos os dias, haviam caído sobre a cidade, como se numa tentativa de lavar a alma da "cidade"...

Os cidadãos, então, reuniram-se em torno desta nova chance de montar uma cidade. Desesperados, não podiam deixar que a nova "cidade" tomasse o mesmo caminho da anterior... O imperador estava disposto a arcar com qualquer desejo para remediar seu erro... Mas, os anciãos o reprimiram. Era arriscado deixar que qualquer um o negasse algo ou ensinassem-no o egoísmo de desejar. Então, usaram de sua própria experiência como humanos e decidiram esconder os objetos de desejo proibidos do novo bebê.

Se ele não conhece, é impossível que deseje... Trancaram-no na torre mais alta, com o maior número de escadarias, presentearam-lhe com brinquedos de todos os tipos, alimentos conforme sua vontade e todo tipo de necessidade infantil... Mas, já se sabia que viria a puberdade e que os desejos viriam de seu sangue. Ele precisaria de companhia, alguém que lhe pudesse entreter a mente e o corpo.

Assim, conhecendo as predileções do espírito, o imperador engravidou sua esposa novamente, que deu a luz a Shahrazad. Ela nunca falou muito de sua mãe, mas entre todo o reino, sabia-se que era conhecida como "a traidora" que foi castigada com a condenação da própria filha a um casamento forçado e uma vida de cárcere na torre... Apesar disso, quando estão juntas, parecem criar um ambiente pacífico e cálido à sua volta.


Ao terminar de ouví-la, minha mente parecia não compreender... O espírito construira a cidade, era-lhe necessário, mas também era-lhe motivo de angústia; os desejos, que lhe eram fonte de energia e alegria, tornaram-se, também, um forte tormento; o amor desejado causava-lhe prazer e fomentava-lhe a dor da culpa...

Estariam os humanos fadados à uma eterna ironia? Mas, o que mais era-me confuso à mente era porque meu coração havia entendido... Porque fiz aquilo?

Shahrazad não o detestava, mas também amava sua liberdade... Seria possível que foi por ela? Ou fiz o que fiz porque não aguentaria vê-la trancada eternamente com outra pessoa, longe de mim?

Bem, o que está feito não se desfaz; apenas se ameniza. O passado não se apaga. Concedi minha vida em troca da de Shahrazad, sob a desculpa de amá-lo, mesmo conhecendo-o apenas por suas histórias... Simulei algum sentimento criando poesias e composições em sua homenagem e consegui enganar a todos... Ou eles queriam, desde o começo, ser enganados? Alguém que o ama seria mais eficaz que alguém com a obrigação de estar lá, não?

Apesar de não ser uma bela oriental, ofereci-me como oferenda na tentativa de satisfazer o espírito e, enquanto for capaz de saciar sua solidão, protegerei-a do triste destino de matar seus desejos pelos de outro... E, destituindo-me de meus desejos, escondendo-os sob o véu da minha perfeição, protegerei-me de vê-la os destruindo.

Imagens

Ghaith: (Obs.: Dessa vez, a personagem foi inspirada numa imagem que encontrei. Gomen, mas o desenho não é meu dessa vez: Desenho original de Mataro, do personagem Suzuno Fuusuke, do anime Inazuma Eleven)

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