"A imagem estática da caixa entomológica nunca poderia ser tão bela quanto a vivacidade do inesperado movimento, a nós aleatório, do bater de asas de uma borboleta." - Helden. Em: "Venosi L'absenti", por Hime-chan

Fanfic de Cardfight! Vanguard: Os Contos dos Espíritos Terrestres - Capítulo 3: As trevas que alimentam sangue com sangue por sua princesa

Esta fanfic faz parte de um conjunto de fics escrita pelo Kad-kun no fórum 'Vanguard Brasil' e que pode ser acessado pelo Google Docs.

Então, é uma personagem da fic que será encaixada em algum momento da mesma pra incrementar a história ^__^x~

Ah, como uma curiosidade, o título da fic é também o título do meu primeiro deck de Cardfight! Vanguard, baseado no Ankoku Madoushi Badhabh Caar e Phantom Blaster Dragon :) ~♥


Os Contos dos Espíritos Terrestres - Capítulo 3: As trevas que alimentam sangue com sangue por sua princesa

Ankoku Madoushi, Badhabh Caar - As trevas que alimentam sangue com sangue por sua princesa

- "O que vamos jantar?" - Perguntei ansiosa, não pela resposta, mas pelo sorriso que se formaria no rosto cujas rugas, aprofundadas pelas preocupações diárias, se desdobravam num tom cálido e sobretudo gentil.

- "As crianças nos trouxeram algumas frutas do pomar, filhinha. Faremos uma torta hoje"

- "hm... eu..."

- "Sei que não gosta dos abacaxis, não os porei na torta... Com eles, farei um suco para mim e seu pai." - Ela cortava as frutas em pequenos pedaços numa doce melodia, compassada e ritmada.

- "Não sei como você come isso... Vai ficar doente comendo coisas azedas, mamaaa~"

Ela apenas sorriu novamente... Sorriu o sorriso que eu esperava, o que eu cultivava com a pitada de piada que esses comentários levemente rudes adicionavam ao ar...

Mas, diferente do habitual, diferente do fruto que eu esperava colher, ele foi passageiro, muito mais breve que seu normal... Definitivamente, havia um problema...

Eu não sabia o quê... E se era algo ruim, eu não devia saber... Poluir minha mente infantil com preocupações era inútil, era o que sempre diziam. Se eu soubesse, eu não poderia ajudar... Como estava, eu poderia, ao menos, amenizar a tristeza em seus corações com a alegria da inocência infantil, com o sorriso de falsa pureza que só as crianças podem embalar.

- "E onde está o papai?" - Eu corria e voltava a percorrer o caminho em suas costas, de um lado a outro, buscando a porção de sua atenção que não estava voltada ao jantar, a parte que se voltava a preocupações tristes e que eu desejava, com todo meu coração, jogar fora com as cascas de mamão na lixeira.

- "S-seu pai está com o homem que veio mais cedo..."

Ela engoliu a saliva e respirou fundo como se isso pudesse ajudá-la a encarcerar as lágrimas dentro do seu coração. Eu... Eu estava piorando a situação? E-eu não sabia, eu ainda não sei o que podia ter feito, mas... o que pensava naquela época era que tudo o que eu podia fazer era continuar... Continuar fingindo que não via, continuar simulando uma inocência, continuar o que fiz minha vida toda...

- "Ah, aquele com o cabelo engraçado?" - Vamos, sorria, sorria mais um pouco, mamãe, por favor...

- "Cabelo engraçado?"

- "Sim, ele não cobre a cabeça toda, como um boné de praia..." - Não um sorriso frio, não um sorriso triste... Não um sorriso forçado...

- "Haha... Isso se chama 'calvo', filhinha"

E, pela primeira vez, eu não parecia capaz de amenizar a situação, de dissolver um pouco de açúcar no amargo chá de suas vidas...

E o jantar chegou, e, com ele, o silêncio das preocupações que preenchia o ar tornando-o incrivelmente pesado, quase esmagador.

- "Como foi seu dia, filha?" - Como se tentasse me ajudar, papai dissipava-o, amenizando um pouco seu peso, esquecendo nosso coração da dor que sua pressão o causava... E eu não podia deixar de retribuir.

Não importa a verdade... Não me interessa a tristeza das crianças e os murmúrios pelos cantos... Eu não posso deixar que isso estrague minha vida perfeita...

Se eu não ouvi o que disseram, se eu me neguei a ouvir, e a acreditar, aquilo não existia pra mim... A minha verdade é a verdade na qual eu decidi acreditar, ela está em mim, então eu posso protegê-la...

- "Foi o melhor dia, papai! As crianças estavam felizes, e as irmãs nos deixaram brincar o dia todo... Fizemos uma coroa de flores para cada uma de nós e enfeitamos o portão principal com o resto delas!"

- "Não dêem trabalho às irmãs, querida..."

- "Não, papai. Nós cuidamos dos mais novos pra elas, nós até limpamos o que sujamos!"

- "Boa garota" - ele sorriu... Por trás dos óculos levemente embaçados pelo calor da sopa que o havia alimentado, suas bochechas arredondaram-se, achatando seus olhos... Seu sorriso sereno era um último suspiro da felicidade em minha vida... Um último farfalhar das pétalas antes da tempestade que viria a desarraigar todo o jardim com aquele "Toc toc" que se seguiu...

- "Querido, vá atendê-lo... Nosso mordomo já deve estar em sua cama. Pode deixar que eu tiro a louça." - Mamãe se levantou com um rosto um pouco mais tranquilo, que lembrava um pouco seu sorriso confortável.

Eu estava feliz... Segui alegremente meu papai até o meio das escadarias que nos levavam à sala principal. Sentia como se aos poucos pudéssemos voltar a ser como éramos, todos felizes, eternamente e perfeitamente felizes...

Mas...

A porta se abriu, papai o fez, e olhou para fora...

- "Você é o senhor Himemiwa?" - A voz grave de um homem o recebeu rispida e vorazmente...

"Sim, no que posso - " incapaz de terminar sua frase, com o habitual tom doce de sua voz, papai foi interrompido. Interrompido pelo som do sangue jorrando de seu pescoço, interrompido pelo líquido rubro que esguichava por toda a sala com a força de uma mangueira de água...

Aquilo foi tudo o que pude ver antes que sua cabeça pendesse ao mesmo tempo que seu corpo, mas para um lado contrário deste... e os pés do homem se revelassem através da porta, andando sobre ele, como um tapete vermelho que havia se estendido para sua entrada.

Medo... Dor... Tristeza... Os sentimentos se confundiam entre si no vazio da minha mente, paralisando meu corpo, meu coração, minha alma... A respiração trêmula não me mantinha em pé... Deslizando meu corpo até o degrau no qual me apoiava...

A imagem do sorriso de papai se despedaçava, seus lábios secos que sequer puderam gemer ou implorar por sua vida nunca mais voltariam a ser capaz de me saudar com sua voz gentil. A pele se enrugava por sobre as rugas quotidianas, revelando ossos e vasos que se esvaziavam em seu contorno, sobressaltando seus olhos que nunca puderam ser fechados.

- "P-papai?" - Eu tentei falar, repetir, gritar... Mas, o ar havia congelado em meus pulmões, a boca aberta parecia adormecida, trancando qualquer via de acesso, interna ou externa.

Então, o fraco som que ecoava, talvez do corpo caído, talvez do sangue a jorrar, talvez dos passos que o espalhavam atraiu mamãe à horrenda cena banhada de vermelho...

Tentei levantar meu corpo, ir em direção a ela, pará-la, mas ele não obedecia... Apenas tremia descontroladamente com todas suas forças, como se, chacoalhando, pudesse expulsar minha alma daquele estetáculo monstruoso.

Os olhos dourados do homem brilhavam vermelho em resposta à nova decoração, sob seus cabelos prateados, tão macabra e assustadoramente que mesmo mascarava sua beleza...

Mamãe era forte, agarrou meu pulso, levantou-me como eu sequer pude fazer a mim mesma e empurrou-me: "Fuja, querida, fuja!", indo em direção ao monstro que abria asas negras, metálicas e, sobretudo, certamente, frias como neve.

"M-mamãe..." - Eu era fraca, eu tinha medo... E, ainda, eu guardava uma esperança de que, se ficasse viva, tudo poderia dar certo. Eu fugi.

Escondi a mim mesma na primeira porta que vi, no armário do escritório de papai, segurando meu coração e minha respiração, evitando mesmo seus ruídos, aprisionando eternamente na minha mente os gritos de medo, de horror e de loucura que ela insistia tentar expulsar.

E tudo passou. Devo ter passado de 3 a 4 horas ali dentro, ouvindo passos, rápidos e lentos, fortes e fracos, em dúvida se pertenciam do monstro na sala ou daquele que, em minha própria mente, destruia as paredes que o seguravam.

Então, decidi sair. Minhas pálpebras pesavam, as lágrimas sequer rolaram sob meu rosto, nenhuma palavra deixou minha boca. Tudo havia se enraizado em meu coração, e era muito claro pra mim que haveria de dar frutos...

Desci as escadas, passando pelos fragmentos de móveis ignorados sobre ela, dos pedaços do nosso querido mordomo, manchando minhas meias brancas na poça vermelha que se estendia desde a porta e por toda a sala e toquei o rosto de mamãe.

Estava frio, tenso, pesado. Como se a vida tivesse o abandonado junto com o sangue que, agora seco, havia escorrido de seu tronco partido ao meio.

Corri até a cômoda do quarto dela, tomei seu estojo de costura, com o qual me fazia babados e costurava as bainhas que se rasgavam em minhas brincadeiras.

Como se a inocência fingida de criança pudesse alterar também a realidade, como se papai e mamãe fossem os culpados e pudessem não resistir às minhas brincadeiras, como se eu realmente acreditasse no que fingia acreditar; eu costurei.

Costurei de volta seus corpos em si próprios, costurei-os com o cuidado de quem cose um vestido de noiva. A pele fria e seca era dura, partia agulhas em meus dedos, mas eu pude fazê-lo. Encostei-os em uma parede e, como se o sangue seco pudesse voltar a correr nos corpos frios, os dei de beber.

Nada. Nem um engasgo, nem um soluço. O sangue sequer descia direito pela glote fechada. A vida havia acabado, a minha, a deles. E ela não haveria de voltar. Meu mundo foi jogado em pedaços pela sala, tão pequenos e tão esmagados, que sequer eu pude costurá-los.

Sentei-me entre eles, se acabou que tenha acabado assim. Conosco juntos, abraçados, com um sorriso no rosto.

~

Abri meus olhos e percebi que apenas havia adormecido. Os deuses sequer haviam considerado um pouco de piedade para me deixar ir com meus pais. A lua ainda reinava sobre os céus atrás da janela, desenhando as silhuetas que eu nunca poderia esquecer e, como se solitária de atenção, desenhando-as de forma que nunca mais me deixariam dormir.

A língua, ainda mais seca que o tapete de sangue que nos adornava, pedia água. Mas, eu não queria sair dali. Tinha que estar ali, ao lado deles, quando os anjos os viessem buscar... para implorar que devolva-os ou para implorar ser levada com eles.

Desencapei, então, um pouco da crosta seca que se formara na superfície daquele líquido vermelho e confirmei que por baixo ainda era líquido, embora um tanto viscoso.

Então, sorri um pouco. Ver a verdade que eu mesma criei não era minha força? "Boas garotas são as que sorriem", não é? Fazia algum tempo que meus lábios não tomavam esta forma.

- "Papai, mamãe, posso beber um pouco... do papai e da mamãe?"

- "Obrigada"

Minha falsa ingenuidade não podia imaginar o quão macabra era aquela cena, impedindo-a de alcançar minha mente, impedindo-a de existir.

Mas, mesmo a resposta que dei a mim mesma como o consentimento de meus pais, ou o fluido pegajoso que descia minha garganta, preenchendo meu coração com seu frio mórbido...

Nada foi mais assustador que o sangue, em minha garganta, tomando forma, moldando-se em um gás tão vermelho quanto o líquido que o originou, escapando pela minha boca aberta e narinas e tomando a forma de um garoto, cujo vermelho semi-transparente solidificava-se em uma pele branca coberta de roupas azuis.

Mesmo naquele estado, não pude deixar de ficar espantada. Tomei um momento para examiná-lo, numa tentativa fútil de compreender a situação.

Nada em seus cabelos de um corte irregular, de um louro tão claro quanto sua pele, orelhas pontudas como um duende, roupas esportivas que lembravam um uniforme de educação física e fone de ouvido o fazia parecer o que ele deveria ser. Mas, seus olhos, de um verde mais vivo que qualquer broto no jardim ensolarado, sorriam pra mim, abraçando minha alma numa bondade infinita, como se compreendesse meus sentimentos. Ele simplesmente não podia deixar de sê-lo.

- "Senhor anjo, não me deixe sozinha aqui! Se não pode deixá-los, leve-me junto com eles..." - Agarrei-me à sua jaqueta, seu sorriso estreitou os olhos e, por um instante, vislumbrei traços de compaixão que ampliaram minhas esperanças quanto a ir, realmente, com meus pais.

Ele se ajoelhou, como se para atenuar a distância que nos separava, como se fazendo-se igual a mim, procurasse compreender meus sentimentos. E sussurrou, como uma mãe que canta uma música de ninar, como quando papai contava histórias para que eu dormisse: - "Você não pode ir ainda, querida... Você tem algo a fazer aqui, sabe?"

Seus dedos longos e finos tocaram minha face... Eram quentes, como se mesmo uma vida ilusória ainda os propiciasse um calor carinhoso, ao contrário daqueles que eu agarrava entre os meus, completamente mortos.

- "Eu... eu tenho? Que pode haver pra eu fazer sem eles? O que eu sequer conseguiria fazer?"

- "Hm hm..." - Ele levantou minha cabeça, apoiando os dedos sob o queixo e balançou a cabeça em negação num movimento gracioso, evidenciando a natureza disforme de seus cabelos louro-brancos. - "Eu vou estar com você. E nós vamos continuar o que seus papais estavam fazendo..."

- "E-eles estavam fazendo algo? Lavar os pratos, você quer dizer?"

Ele sorriu... Eu realmente não esperava que essa inocência forjada funcionasse com ele... Mas, ele parecia feliz e talvez um pouco surpreso apenas com essas tentativas...

- "Seus papais se sujaram muito pra fazer isso. Você sabe, não é? Administrar o orfanato, tornar perfeita a vida de cada uma daquelas crianças... Isso foi bem caro..."

- "S-sujaram?" - Eu.. estava confusa. Era tudo aquilo que eu nunca pude, que eu sempre me neguei ,a ouvir, a conhecer. Eu sabia... Sabia que havia algo, algo por trás, algo que me sujaria também... Mas, suja, como eu poderia limpar suas mentes?

Mesmo que momentaneamente, eu precisava forçar uma felicidade sobre eles, tingir um pouco de branco em suas vidas negras... Mas, agora... De que adiantaria estar limpa?

- "Sim... Eles cavaram bem fundo na lama, remexeram bastante até tirar o que havia de melhor pra trazer pras crianças... E então, fizeram um belo jardim, uma casa enorme, contrataram irmãs gentis e acolheram crianças doentes, crianças abandonadas, crianças órfãs, todos que precisavam de ajuda... É um lindo trabalho, não?"

- "Uhum!" - Eu sorri, um sorriso que carregava toda minha felicidade por ser compreendida, que carregava uma tentativa boba de retribuir um mínimo de suas palavras doces que embalavam meu espírito, de retribuir um mísero facho da luz emanada daquela feição gentil, que dissipava as trevas de minha mente...

- "Mas, essa lama, querida, não era lama... Era sangue."

- "Ahg..." - Expulsei algum gemido inconsciente e levei as mãos à boca, como se aprisionando o restante do grito de horror que me tomava os sentidos dentro de meus pulmões, engolindo-o, tornando-o parte de mim.

- "Shh..." - ele aproximou sua face, tornando ainda mais verdes os olhos compreensivos que me observavam, e que me salvavam. - "Isso não é ruim, minha pequena amiga. Às vezes, adubo precisa ser colocado para que floresça um jardim. E o sangue é o adubo da justiça. Sem derramamento de sangue, não há justiça, não há alegria, não há futuro."

- "M-mas" - Naquele momento, eu nem mesmo sabia o que pensar. O aglomerado de sensações, de lembranças, de dúvidas e de medos se confundia em sua própria disputa por minha atenção. Mas, aqueles olhos que brilhavam como vagalumes numa noite deserta sequer abriam brecha para qualquer sentimento.

- "O que eles fizeram não foi errado. Eles apenas destruiram vidas já destruídas, separaram o joio do trigo, detetizaram os insetos da plantação... Sem isso, não haveriam vegetais. Sem destruição, não há construção. Se o passado se impõe, não há futuro."

Sem destruir o passado... não há futuro. As palavras doces e compassadas do anjo de orelhas pontiagudas começavam a penetrar minha alma infantil, desenvolvendo-a, tornando-me suja, demolindo a fortaleza de proteção que fora construída em torno de minha inocência, de minha ignorância.

- "Você sabe o que são drogas, minha linda amiga?" - Ele sentou-se à minha frente, com seu lado esquerdo voltado para mim, arqueando seu corpo para novamente alcançar minha altura e continuou com o tom gracioso de seus sussurros cálidos - "Seu papai e mamãe ganhavam dinheiro ilicitamente, com ações que os humanos consideram imorais. E tudo isso, a casa, o jardim, as crianças, o jantar de vocês... Tudo isso foi adubado com a vida daqueles que compraram essas drogas e morreram por elas."

- "N-n-não, eu não posso..."

- "E agora... Eles se sujaram tanto, que morreram também. Foram mortos, talvez por alguém que também queria limpar o mundo ou talvez por alguém que queria limpar sua própria vida... "

Naquele momento, o calor de sua respiração, como se derretesse as geleiras formadas desde que minha ingenuidade percebera a si própria, trouxe à tona todas as lágrimas enterradas, arrastando consigo o pouco de sanidade que me restava, conduzindo a confusão de pensamentos à flor da pele, libertando-me daquela tortura.

E, como num ato de bondade, como se compreendesse minha dor, o anjo trouxe minha cabeça a seu peito, num abraço macio, cantando-me a melodia de seu coração, convidando o meu também a cantar, atraindo minha vida a seu próprio caminho, salvando-a do desfiladeiro infinito.

- "Mas, você não vai deixar, não é?... Que a vida deles seja em vão... Que sua morte seja o fim... Você precisa lutar. Precisa salvar o mundo. Salvá-lo das pessoas que cospem os atos criminosos em seus túmulos sem sequer analisar os motivos que os levaram a sujar as mãos. Salvá-lo daqueles que, na mídia, comandam toda a população ao ódio contra aqueles que apenas tentaram cuidar das vidas que eles próprio abandonaram. Salvá-lo do poder atual, renová-lo, reconstruí-lo, de uma forma que não se destrua mais, de uma forma onde haja amor e não ódio, da forma como seus pais quiseram, da forma que eles sempre sonharam pra você."

- "M-mas, senhor anjo... O que... o que eu posso fazer? Como eu vou fazer isso se nem eles puderam fazer? O que eu devo fazer?" - Meus olhos encharcados encontraram os seus e refletiram-me na piedade exposta neles.

- "Eu vou te ajudar" - Seu rosto sorria novamente pra mim, esquentando minhas lágrimas e meu coração. - "A partir de agora, e para sempre, você nunca mais estará sozinha. Não como meros amigos, mas eu e você seremos um. Seus objetivos serão meus objetivos; suas mãos sujas, minhas mãos sujas; seus pecados, meus pecados; seus assassinatos, meus assassinatos; sua vida, minha vida e sua morte... minha morte, a glória àqueles que amamos."

A voz macia que deixava o rosto pálido acariciava meus ouvidos suavemente. Estar pra sempre juntos. Não havia nada que me pudesse trazer maior felicidade. Eu não queria ficar sozinha, eu não queria mais ser abandonada com o odor forte da carne costurada em si própria sob o pescoço pendido. Eu já havia sido mimada o suficiente para desejar a felicidade... Mas, agora, uma pessoa já me bastava. E não havia nada que eu não faria por ela.

Ele pousou a porção interna de meus joelhos em seus braços e levantou-se, carregando-me pela escada até a mesa onde tivemos nossa última refeição e pôs-me sobre ela. De pé, olhava-o por cima, com o desconforto que denunciava o equívoco do meu lugar... Não era eu quem deveria estar acima, simulando uma superioridade em relação ao meu anjo e salvador, aquele que, agora, eu havia escolhido amar...

- "Vamos começar, querida." - Tocou minha mão, levou-a aos lábios num beijo delicado e sorriu. - "Stand up, Fullbau"

Suas palavras suaves soaram como uma onda de terror em meu corpo que curvava-se numa forma canina como se acatando uma ordem. Uma aura negra tomou minha mente e eu sequer pude pensar claramente. "Preciso chamá-lo, preciso chamá-lo" era tudo a que meus pensamentos se permitiam restringir. O pavor percorria minha espinha, enregelando o metal que me compunha o corpo, aqueles sentimentos latejavam em minha mente "Uma guerra... Preciso chamá-lo!" como uma prece, até que tudo acabou por esvair-se num uivo alto e profundo, que liberava todas as preocupações em direção a uma pessoa.

- "Ride, Blaster Javelin" - a voz doce de meu anjo afagou novamente meus ouvidos. E meu corpo voltou a metamoforsear-se, dissipando o cheiro do metal frio e me tornando humana novamente. De volta com o corpo, os sentimentos humanos e pensamentos bem definidos reviveram. "Porque haveria eu de servir à sociedade atual? Eu escolhi a quem servir. Não pode haver lealdade se não há escolha."

- "E agora, Blaster Dark" - O canto do anjo novamente ressoava em minha mente, transformando meu corpo, confundindo meus pensamentos. A energia quente, poderosa e justa da lança em minha mão se tornava fria e carregada de rancor, transbordando inveja em minha alma. "Porque não me aceitou? Eu vou derrotá-lo, provar o que sou." Estes, reconheci, não eram meus pensamentos. Havia algo de escuro em meu coração, que me era estranho. Imagens fragmentadas percorriam minha mente... Uma espada, uma traição, uma tragédia... O ódio crescia, crescia e tomava forma, crescia e dava forma ao meu corpo, uma forma enorme como ele, demoníaca, negra e, sobretudo... majestosa. Uma forma para a qual o teto se fora a seus pés, despindo as estrelas no véu negro da noite que cobria os céus.

Então, o ódio começou a correr minhas veias, fluindo, pela minha mão direita, à lança que eu portava mais uma vez; fluindo, pelas minhas costas, às pesadas asas que me tornavam leve. "Destruição, ódio, morte, sangue..."

- "Bem-vindo, ó meu amo, Phantom Blaster Dragon. Eu trouxe suas oferendas, minha princesa." - Seu sorriso sincero mostrou-se a mim novamente. Sua mão esquerda sustentava a mão de uma mulher bonita, e um crânio luminoso sobre ela.

Seu corpo escultural trajava preto em pouco mais que uma armadura em seus braços e pernas, mas, pouco pude ver além disso. Sua presença pressionava meu corpo a uma repugnante vontade de... comê-la. Os pensamentos embaralhados e a dor que preenchia o vazio de meu interior me empeliam a fazê-lo e eu o fiz. O fiz como havia feito ao sangue de meus pais.

Diferente destes, seu corpo era macio, quente, saudável, poderoso... Segurava seu corpo como a uma boneca, a carne fina rasgava com facilidade como se sequer existissem ossos, meu sangue fervia sob o banquete que me era servido e ela nunca pôde desprender mais que dois ou três gemidos.

O sangue escorrendo em minha boca sussurrava "mais, mais" num vício inevitável, voltando-me à próxima vítima. Havia um cavalo alado, um pégaso, envolto em correntes rígidas, negro como a noite, cujos olhos vermelhos voltavam-se para mim, transferindo algum tipo de energia, tornando-o ainda mais atraente ao paladar repugnante daquele monstro no qual eu havia me tornado.

Tomei-o novamente em minhas mãos e levei-o à boca, levei-o à morte. O ferro e asas sequer pareciam existir dada a facilidade com que as penas de seu corpo transformavam-se em calor, em poder, em mim... As memórias já confusas mesclavam-se a imagens de prisão, à dor das correntes, tomando minha mente como as ilusões de rituais com crânios humanos... Tudo era trevas, um vácuo infinito e, simultaneamente, repleto, repleto de pensamentos e desejos, ódio e rancor aos homens, a todos, ao mundo.

E eis que, em meio à miscelânea de sensações, surge meu príncipe, meu anjo, flutuando sobre os escombros de tudo, estendendo-me a mão sob seu sorriso cálido, pacífico e, sobretudo, melancólico.

- "Sucumbam às trevas das quais vieram... Tornem-se o poder daquele que lhes proveu todo ele. Alimentem as mortes futuras com suas próprias mortes. Incrementem o ódio com suas próprias existências odiosas. Destruam... Para criar. Damned Charging Lance" - seus murmúrios leves suavizavam a atmosfera, contrastando com a anarquia que governava minha mente... A calidez de sua mão tocou meu rosto novamente, tão pequena em meu corpo enorme, mas tão macia na pele metálica que se fazia notória... Indispensável... Deliciosa...

Parei por um momento e observei, através das lentes vermelhas, o lindo anjo que brilhava à minha frente... Seu cheiro doce, sedutor, quase sufocante, invocava minha fome... Minha ferocidade... Meus desejos... Eu o queria, eternamente, como parte de mim, como eu mesma... Não daquela forma, a única forma que aquele corpo conhecia... Não destroçado entre os dentes afiados, esmagado em sangue e carne dentro de mim, não da forma como fiz.

Sem um gemido, sequer um murmúrio, seu corpo se foi, uniu-se ao meu, como se o desejasse desde o início; completando o poder, reunindo-se à fúria, espalhando o cheiro de sangue de suas memórias na brisa forte sob minhas asas negras.

"A morte àqueles que não entendem, sustentada pela morte dos que deram sua vida para fazê-los compreender." Minha lança pesava a morte daqueles que matam o mundo, a dignidade, a bondade e o amor. Mas eu a carregava, com minhas asas, alçando voo pelos céus, gentilmente, como se compreendesse seu peso, o peso de seu valor, o peso daqueles que a amaldiçoaram com suas vidas, daqueles que lhe fizeram capaz de exaurir outras vidas.

Avistava a cidade abaixo de mim, cada pensamento imundo brilhava negro em meio à névoa de sentimentos negativos sobre ela, atraía minha lança, meu ódio, minha sede de sangue. Em especial a estação de TV, as palavras dos repórteres, parafraseada nas vozes das crianças no orfanato, que ressurgiam aos meus ouvidos, latejando na fúria ardente que me tomava, dançando nos veios escarlates que percorriam a lâmina.

Um rugido me tomou a mente, escapando pela garganta e levando-me em segundos ao topo do prédio, destituindo-o de teto num aterrissar brusco, roubando sua paz, suas vidas, esmagando-os em mais sangue, em mais mortes, em corpos, gritos e lágrimas.

E a doce melodia, a voz do meu salvador, ressoou mais uma vez dentro de mim, em minha mente, na forma de um pensamento irrefutável. "Só mais uma vez, minha princesa. Que o ódio se torne dor e pesar, mas que não se negue o destino, o propósito. Cross Ride, meu lorde, Phantom Blaster Overlord..."

Naquele momento, senti como se todo a tormenta do ódio fosse limpa, expelida pelas fendas na armadura que me cobria o manto de agonia de que consistia o corpo... Dando lugar ao peso da culpa em ter-lhe tirado as vidas, a um peso que inevitavelmente havia de ser carregado em duas lâminas...

Eles precisam morrer, da mesma forma que a semente dá lugar às flores que brotam e as flores que brotam dão lugar às sementes. Flores imundas, que darão frutos estragados se não forem cortadas... Mesmo que precise lavar o mundo com sangue, não posso deixar que continue maculando suas sementes, mesmo que precise matar a todos, mesmo que precise matar a mim mesma...

- "Chegou a hora, minha doce, pequena, princesa das trevas... Peço que faça-se um sacrifício de si própria, livre o mundo do ódio que lhe corrompe, lave sangue com sangue, beije a testa das crianças abandonadas com sua própria morte." - A voz proferida de dentro de mim se fazia sincera e pura, expelindo minha própria vontade: "Ainda não está limpo..." . A dor pulsava em mim e eu precisava me livrar dela. "Personal Blast!"

E tudo se fez a pura agonia, numa única e precisa explosão, num fim explêndido para um amontoado pútrido de sentimentos... E não havia nada. Desespero e morte, sangue e lágrimas, tudo se foi em um segundo.

~

E novamente acordei... Depois da minha segunda morte, abri meus olhos novamente, avistei aquele que me prometeu a presença eterna ao meu lado... Seus olhos verdes adornando o sorriso triste, a pele doentia, o cabelo despenteado, os lenços que circundavam sua aura como asas improvisadas e o som de seu coração, compassado com o meu... Era como um sonho depois da realidade e não como a realidade após o pesadelo.

Percebi que estávamos à frente da casa que guardava um mar de sangue no íntimo daquela aparência pacífica, sob os primeiros raios de luz solar matinal. Ignorei a dor do meu coração e fiz-me sorrir, como sempre fazia, como havia aprendido a fazer... E ele me pôs de pé, ajoelhando-se à minha frente, tocando meus cabelos com as mãos delicadas e dedos esguios. - "Não vamos mais precisar disso, não é querida?"

A dor, o passado, aquela casa, os corpos deitados sobre o carpete, o comprimento bem cuidado do cabelo que guardava todo o mimo que recebera, as roupas pomposas e as bonecas francesas... De que adiantava tudo agora? O amor representado naquilo tudo não combinava com as mãos cheias de sangue... Mas, com as chamas ardentes da inexistência que lhes fizeram queimar naquele dia, junto com minha inocência.

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Fanfic de Cardfight! Vanguard: Os Contos dos Espíritos Terrestres - Capítulo 3: As trevas que alimentam sangue com sangue por sua princesa

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